As Baratas ao
Redor do Mundo
“Tudo ali havia
secado - mas restara uma barata. Uma barata tão velha
que era imemorial. O que sempre me repugnara em baratas
é que elas eram obsoletas e no entanto atuais. Saber
que elas já estavam na Terra, e iguais a hoje, antes
mesmo que tivessem aparecido os primeiros dinossauros, saber
que o primeiro homem surgido já as havia encontrado
proliferadas e se arrastando vivas, saber que elas haviam
testemunhado a formação das grandes jazidas
de petróleo e carvão no mundo, e lá
estavam durante o grande avanço e depois durante
o grande recuo das geleiras - a resistência pacífica.
Eu sabia que baratas resistiam a mais de
um mês sem alimento ou água. E que até
de madeira faziam substância nutritiva aproveitável.
E que, mesmo depois de pisadas, descomprimiam-se lentamente
e continuavam a andar. Mesmo congeladas, ao degelarem, prosseguiam
na marcha... Há trezentos e cinqüenta milhões
de anos elas se repetiam sem se transformarem. Quando o
mundo era quase nu elas já o cobriam vagarosas.”
Clarisse Lispector
resume com poesia nesse trecho o histórico das baratas
na Terra. De fato, as baratas foram um dos primeiros insetos
com asas a existir no planeta. Há indícios
de que as primeiras se originaram no continente africano
há aproximadamente 300 a 400 milhões de anos
atrás e mudaram pouquíssimo desde seu surgimento,
o que é mostrado por fósseis: as mudanças
mais acentuadas registradas são variações
no número de espinhos das pernas e no padrão
de nervura das asas. Isso indica que esses insetos são
altamente adaptados e resistentes, o que é possibilitado
pelo formato do corpo, pela carapaça resistente e
sistema imune eficiente. Vale lembrar que baratas domésticas
vivem no esgoto, entre germes, mas não ficam doentes!
Indícios fósseis
indicam uma especial abundância das baratas
no Carbonífero, que compreende o tempo entre 359
milhões e 200 milhões de anos a.C.. O período
chegou a receber o nome de “Idade das Baratas”,
dada a quantidade de fósseis desses animais que datam
dessa época. O registro é formado principalmente
por marcas de asas e suas nervuras, que possibilitam a identificação
das espécies. Na América do Sul, os fósseis
mais antigos datam de 280 milhões de anos e também
foram reconhecidos somente pela presença de asas.
Porém, em rochas calcáreas da região
de Santana do Cariri, no Ceará, foram encontrados
insetos contemporâneos aos dinossauros bem preservados
que datam de 112 milhões de anos.
Talvez o fóssil
mais intrigante de barata seja o encontrado
em Ohio, nos Estados Unidos. Nele está registrada
a maior barata conhecida, do tamanho de um rato. Ela vivia
em pântano gigantesco, 55 milhões de anos antes
dos dinossauros surgirem. Haja chinelo para uma barata dessa!
As baratas
domésticas são ou já foram, em algum
lugar do mundo, silvestres e encontraram no ambiente urbano
facilidades para sua sobrevivência, como alimento,
abrigo e água. O homem também acelerou sua
disseminação pelo mundo através de
seus meios de transporte. Com a intensificação
do comércio internacional e transferências
de mercadorias, muitas baratas já se tornaram cosmopolitas.
Pelo menos 8 espécies
de baratas domésticas
parecem ser originárias da África, de onde
se espalharam pelo comércio (transporte de cargas).
Os principais meios de disseminação são:
Carros e caminhões, principalmente de móveis
e gêneros alimentícios. Como as distâncias
percorridas são relativamente curtas, a dispersão
é limitada.
Navios. Historicamente, são infestados de baratas.
Apesar de transportarem principalmente as espécies
domésticas, podem dispersar também as silvestres
a outras áreas do mundo, como ocorre no transporte
de banana da América Tropical a outras partes, onde
são encontradas com freqüência a barata
cascuda (Leucophaea maderae) e a barata
australiana (Periplaneta australasiae). Essa forma
de disseminação é bastante importante
por ser de larga distância e pelo grande número
de indivíduos que pode carregar.
Aviões, em especial na bagagem e nas cozinhas.
Acredita-se que as
baratas, principalmente a Periplaneta
americana (barata vermelha), são encontradas
em todas as vilas, povoados e cidades de todos os estados
brasileiros. A barata vermelha pode ser encontrada em residências,
depósitos de lixo, bares, restaurantes, despensas,
hotéis, navios, etc. e freqüenta latrinas, fossas,
esgotos, lixo e cadáveres de animais, onde pode adquirir
agentes patogênicos ao homem ou a animais domésticos.
A espécie já foi descrita em São Paulo,
Amapá, Amazonas, Rio Grande do Norte, Bahia e Rio
de Janeiro.
A Blattella germanica
(baratinha) prefere viver em cozinhas e é problema
muito sério em restaurantes do estado de São
Paulo. Diferente do que ocorre no Brasil, ela supera a barata
vermelha em muitos países. Acredita-se que ocorra
em todos os estados brasileiros.
Outras baratas
menos abundantes também têm suas preferências:
Pycnoscelus
surinamensis (barata do Suriname):
pode se tornar comum em depósitos, despensas, etc.
No Brasil, já foi descrita em São Paulo, Pará,
Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Mato Grosso.
Periplaneta
australasiae
(barata australiana): é encontrada em residências
danificando roupas, livros e plantas. Têm sido encontrada
no Amapá, Amazonas, Pará, Paraíba e
Rio de Janeiro, mas acredita-se que esteja presente em todos
os estados brasileiros, inclusive São Paulo.
Leucophaea
maderae
(barata cascuda ou barata grande dos armazéns):
pode tornar-se freqüente em depósitos de sacos
e de garrafas vazias. No Brasil, já foram encontradas
em São Paulo, Amazonas, Bahia e Rio de Janeiro, mas
sua distribuição deve abranger todos os estados
brasileiros.
Supella
supellectilium:
é encontrada em São Paulo, Rio de Janeiro
e Pará. Sua distribuição também
abrange Cuba, Estados Unidos, Índias Ocidentais e
vários países não americanos.
Blatta
orientalis
(barata oriental): pode ser encontrada em residências
ou fora delas. Sua presença no Brasil é certa,
mas ela ainda não foi descrita em nenhum estado.
Periplaneta
brunnea (barata-parda):
no Brasil, ocorre principalmente no Pará e Rio Grande
do Norte. Também é conhecida no Chile e Guiana.