Prevenção
e Controle dos Percevejos
Triatomíneos
Das cerca de 118 espécies
de triatomíneos existentes, menos da metade pode
conviver com o homem, assumindo maior ou menor importância
conforme o seu potencial de formação de colônias
dentro das casas. A maioria dos triatomíneos conserva
seu habitat original, representado pelos ambientes silvestres.
A modificação do ambiente natural pelo homem
destrói estes ambientes e desfaz-se o equilíbrio
que controla o tamanho destas populações.
No estado de São
Paulo foi demonstrado que em regiões preservadas,
a espécie Triatoma sordida silvestre vive
em equilíbrio com seus predadores naturais. Como
resultado da implantação de áreas de
pastagem nestes locais, as árvores derrubadas e mortas
servem de esconderijo, e o desaparecimento de seus predadores
permite o aumento da população deste triatomíneo,
com maior risco de invasão de ambientes silvestres
e domiciliares. A construção, neste ambiente
modificado, de habitações de má qualidade,
muitas vezes utilizando barro e paus roliços, oferece
aos triatomíneos as condições necessárias
para sua sobrevivência: temperatura e umidade adequadas,
esconderijos (principalmente as frestas das paredes) e alimentação
(animais domésticos e o próprio homem).
O trabalho de controle
dos triatomíneos deve levar em consideração
esse ambiente no qual a doença de Chagas é
transmitida. A casa deve ser compreendida dentro do contexto
de injustiça social e desvalorização
do homem do campo, refletindo muitas vezes o papel marginal
das populações rurais. A destruição
do meio ambiente, por sua vez, reflete, por um lado, o despreparo
deste homem rural, ainda utilizando técnicas agrícolas
ultrapassadas e predatórias e, por outro lado, a
falta de uma política de conservação
da natureza.
Melhoria Habitacional
e Educação Sanitária
Os benefícios
da melhoria habitacional ultrapassam o objetivo único
de controle da transmissão da doença de Chagas.
A melhoria do padrão sanitário também
evitará doenças como tuberculose, hanseníase,
verminoses etc., e a colonização da casa por
outros insetos e aracnídeos, trazendo como conseqüência
mais saúde para os seus moradores. Várias
técnicas de construção simples e baratas
têm sido desenvolvidas, na busca de alternativas aplicáveis
a programas que visem à melhoria ou substituição
de habitações rurais, como a obtenção
de massas e tijolos mais resistentes que o barro normalmente
utilizado. No entanto, a implantação destes
programas é uma decisão de caráter
político a favor das populações pobres,
que não tem acesso à terra e aos meios de
produção.
Não se pode
esquecer, porém, que a melhoria habitacional deve
ser acompanhada por medidas a serem tomadas pelo morador.
Algumas experiências vêm mostrando que casas
de alvenaria recém-construídas podem ser rapidamente
povoadas por triatomíneos, desde que seja mantida
a desorganização (sujeira) interna e os esconderijos
necessários para alojamento dos barbeiros. Por isso,
nada de bagunça! Arrumar a casa e varrê-la
todos os dias é uma maneira de manter os barbeiros
longe de você!
Além disso, é preciso que a nova construção
esteja ao alcance da população (baixo custo;
utilização de matéria-prima disponível
na região; repasse de tecnologia de construção)
para possíveis reformas posteriores. Caso contrário,
estas modificações serão feitas da
mesma maneira de antes, facilitando a recolonização
das casas por triatomíneos silvestres ou procedentes
de habitações próximas infestadas.
Ainda, considerando
a importância do peridomicílio na manutenção
de grandes populações de triatomíneos
muito próximas às moradias, a melhoria habitacional
deve se estender ainda aos seus anexos (galinheiros, chiqueiros,
paióis, currais etc.).
Controle
Biológico
É importante
considerar que os métodos de controle biológico,
já por definição, não têm
por objetivo a eliminação dos triatomíneos,
mas a manutenção de sua população
em equilíbrio com seus predadores. Tratando-se da
doença de Chagas, o objetivo deve ser a eliminação
total dos barbeiros dentro das casas. A utilização
de métodos de controle biológico, portanto,
apresenta grandes limitações e pouca perspectiva
de aplicação prática, a não
ser que associado a outro método de maior eficiência.
Foram identificados várias espécies que, naturalmente,
parasitam ou predam os triatomíneos. Entre eles,
podemos citar:
Fungos:
algumas experiências de laboratório
têm demonstrado a ação letal de fungos
sobre triatomíneos, como o Metarrhizium anisopliae.
Entretanto, sua utilização no campo é
limitada por condições que regulam o desenvolvimento
dos próprios fungos, que requerem umidade e temperatura
adequadas. Caso essas condições não
sejam apropriadas, os fungos não se desenvolvem e
não se obtém os efeitos desejados.
Micro-himenópteros:
insetos dos gêneros Telenomus e Ooencyrtus
parasitam ovos de várias espécies de triatomíneos.
As fêmeas colocam seus ovos no interior do ovo do
barbeiro, onde o parasitóide tem seu desenvolvimento
completo (larva, pupa e adulto). As larvas alimentam-se
do embrião do triatomíneo em desenvolvimento,
matando-o. Quando os parasitóides tornam-se adultos,
perfuram a casca do ovo do barbeiro com suas mandíbulas
e vão para o meio externo. Esse método não
tem nenhuma indicação para o controle de triatomíneos
domiciliados. Porém, poderia ser aplicado na redução
de triatomíneos presentes em ambientes silvestres
próximos de domicílios.
Outros
artrópodes e vertebrados: hemípteros
predadores, formigas, microácaros, aranhas, entre
outros, podem se alimentar de triatomíneos. Na medida
em que casas colonizadas por barbeiros geralmente têm
baixo padrão de higiene, sendo freqüentemente
habitadas por estes outros artrópodes, os mesmos
podem desempenhar papel relativo no controle da população
dos triatomíneos. Cumprem o mesmo papel sapos, lagartos,
aves (principalmente galinhas) e outros vertebrados.
Hormônios
Hormônios juvenilizantes,
estimuladores de crescimento e inibidores de quitina são
métodos de controle ainda em fase inicial de experimentação
com resultados contraditórios e sem utilização
rotineira. Além disso, apresentam como desvantagens
a redução lenta de população
de insetos e o fato de os triatomíneos continuarem
se alimentando, mesmo afetados pela ação dos
produtos. A seguir descreve-se a ação desses
produtos sobre os triatomíneos.
Hormônio
Juvenilizante
Sob ação
do hormônio juvenilizante, os triatomíneos
mantêm-se sexualmente imaturos até o quinto
estádio ninfal. Análogos desse hormônio
podem ser sintetizados artificialmente no laboratório,
produzindo efeito semelhante sobre estes insetos. Se aplicados
sobre ninfas de quinto estádio, a muda para o estádio
adulto não acontece, emergindo um inseto de sexto
estádio, sexualmente imaturo. Desta maneira, este
triatomíneo é incapaz de se reproduzir, interferindo
na sua população, que deverá desaparecer
por não gerar novos indivíduos.
Estimuladores de Crescimento
Ao contrário
do hormônio juvenilizante, os estimuladores de crescimento
atuam sobre as ninfas de até quarto estádio,
produzindo adultóides. Estes adultóides não
apresentam amadurecimento dos órgãos sexuais,
além de outras deformações físicas,
impedindo-os de se reproduzir e causando o mesmo efeito
obtido com os hormônios juvenilizantes.
lnibidores de Quitina
São substâncias
que, no processo de ecdise, interferem na produção
de quitina, causando o aparecimento de insetos deformados,
frágeis e mais sujeitos à ação
de predadores.
Inseticidas
Tomando-se em consideração
as limitações dos métodos de controle
anteriormente descritos, os inseticidas correspondem ao
método mais rápido de controle dos triatomíneos.
Sua aplicação faz com que a população
intradomiciliar caia rapidamente, obtendo-se em pouco tempo
a interrupção da transmissão da doença
de Chagas.
É muito importante
ressaltar que o uso de inseticidas é extremamente
perigoso e, havendo possibilidade, é sempre melhor
evitar o seu uso. O uso indiscriminado de inseticidas no
interior do domicílio e no ambiente peridomiciliar
requer experiência e cuidados. Conseqüentemente,
uma boa medida poderá ser a prestação
de serviços por parte de empresas profissionais de
reconhecida competência.
Cimicidae
A prevenção
e o controle dos percevejos de cama são relativamente
mais simples. Medidas usuais de higiene doméstica
(trocar e lavar roupas de cama semanalmente, varrer a casa
diariamente etc) são capazes de impedir a colonização
desses insetos nas camas. E, caso existam nas casas ou galinheiros,
pode haver a necessidade de aplicação de inseticidas,
lembrando sempre dos cuidados que devem ser tomados.