Curiosidades
Que tal viver como em um cupinzeiro?
O leitor, que é
culto, com certeza já deve ter ouvido a expressão
“A vida imita a arte”. Será? Tirando
de lado a brincadeirinha infantil de quem imita quem, por
vezes nós encontramos a situação inversa
acontecendo, ou seja, a arte imitando a vida. Foi com esse
pensamento que especialistas da Universidade britânica
de Loughborough tiveram uma idéia pra lá de
inovadora e, por que não dizer, cara-de-pau.
Tudo começou
com a observação de cupinzeiros. Foi assim
que Rupert Soar e Scott Turner, especialistas da universidade
britânica, tiveram a sacada de como tentar melhorar
a ocupação dos espaços internos das
casas e dos ambientes que albergam muitas pessoas. Isso
porque os cupinzeiros são lugares comuns de até
milhões de cupins e o espaço
é muito bem aproveitado. Proporcionalmente um cupim
respira tal como um ser humano, o que facilita a escolha
do modelo de estudo. A ventilação é
ótima e o cupinzeiro tem estrutura tal que pode resistir
ao calor extremo tanto quanto a chuvas torrenciais e frios
congelantes. Em última análise, é como
se o cupinzeiro respirasse. Como eles fazem esta proeza?
Segundo os pesquisadores
a resposta desta questão poderá auxiliar os
seres humanos a fazer edificações mais inteligentes,
principalmente no tocante ao aproveitamento do espaço.
Os pesquisadores que há alguns anos se devotam a
entender mais sobre cupins africanos, afirmam
que o estudo tem início na Namíbia, país
que possui cupinzeiros de 3 a 9 metros de comprimento. O
mais surpreendente destes cupinzeiros é que a ventilação
é suficiente para toda a colônia ainda que
o cupinzeiro tenha um ou dois metros de profundidade. Esses
ninhos são construídos de tal forma que o
aproveitamento de energia é quase total: energia
eólica, solar e etc. Tudo isso sem variar quase nada
em termos de temperatura, umidade e qualidade do ar. Além
de todas essas características, as novas edificações
também devem ser sustentáveis e não
poluidoras ao meio ambiente.
Os cupins e o aquecimento global
O mundo está
repleto de cupim. Tanto que às vezes é compreensível
se o leitor pensar que eles ainda hão de dominar
o mundo. Para se ter uma idéia, existem cerca de
4 bilhões de toneladas deles. Isso significa que
há cerca de 700 kilos de cupim para cada ser humano
no planeta.
Em termos de carbono,
nenhuma outra espécie no planeta consegue chegar
nesse estágio. Não pára por aí.
Os bichinhos comem muito! Para se ter uma noção,
os cupins consomem comida na média
de sete vezes a sua biomassa. Mas para onde vai toda essa
comida? Essa pergunta poderia ser traduzida bioquimicamente
com a seguinte questão:
“Para onde vai
todo esse carbono?”
Muitas pesquisas têm
se dedicado a estudar os cupins e seus mecanismos fisiológicos.
Essas pesquisas têm como objetivo caracterizar o perfil
alimentar dos cupins e descrever o tipo de excretas deles:
sólidos, líquidos e gasosos. E aí vem
a surpresa! Os cupins produzem em grande
quantidade gases como metano, que é extremamente
danoso ao ambiente, aumentando a problemática do
acúmulo de carbono atmosférico e, por conseqüência,
o efeito estufa e tão temido aquecimento global.
O metano (CH4) é
um importante gás atmosférico, contribuindo
significativamente para a absorção de diversos
comprimentos de onda. Algumas análises têm
demonstrado que a concentração atmosférica
de metano aumentou de 30% nos últimos 40 anos. Esse
aumento pode afetar enormemente os níveis de ozônio
na atmosfera e, portanto, todo o clima na Terra. Atividades
como produção de arroz e pecuária,
uso de combustíveis fósseis e queima de biomassa
são as causas aparentes do aumento dos níveis
de metano na Terra. Somado a estes estão os cupins,
que produzem de 2 a 150 Tg por ano. Para ter noção
da grandeza, 1 teragrama = 1000000000 kilogramas.
Analisando esses dados,
nota-se uma ampla variação daquilo que é
esperado da contribuição dos cupins na emissão
de metano. Entretanto, novos dados relacionados à
emissão de CH4 advindos tanto do Hemisfério
Norte quanto do Sul, de cupins de regiões
tropicais e temperadas indicam que o papel dos cupins na
poluição global por CH4 é de provavelmente
menos de 15 Tg. Isso seria relativo a pouco menos do que
5% da emissão global.
Estudos recentes afirmam
que o metano dos cupins é formado
no trato gastrointestinal desses insetos. Decorre da quebra
da celulose pelos microrganismos simbióticos presentes
nos órgãos digestórios. O que também
se sabe é que a quantidade de metano produzida varia
de espécie para espécie.
O que então
é preciso sabe para poder manejar todos esses dados
de modo a diminuir ou atenuar os efeitos da produção
de metano? Conhecer quais são as condições
necessárias para a produção de metano.
A produção
de metano por cupins depende de alguns fatores ambientais
como intensidade da luz, umidade, temperatura e concentrações
de CO2 (dióxido de carbono) e O2 (oxigênio).
Vale ainda dizer que os cupins preferem
a ausência de radiação solar, uma atmosfera
imóvel, atmosfera saturada quanto à umidade,
temperatura alta e estável e elevadas concentrações
de CO2. Outras variáveis também poderiam ser
o tamanho do cupinzeiro, densidade populacional, atividade
dos cupins e a própria espécie do cupim, como
citado.
Cupins e energia sustentável
Como visto anteriormente,
os cupins comem proporcionalmente muito. Isso significa
que os microrganismos que ocupam o trato digestório
dos cupins são bastante ativos.
Como resíduos, são formados diversos compostos,
inclusive gases. Um dos principais gases formado é
o gás hidrogênio (H2).
Estima-se que a produção
anual de hidrogênio por parte dos cupins seja em torno
de 2.1014 gramas, o que é bastante significativo.
Mas qual é a utilidade do hidrogênio? Tem alguma
serventia saber que os cupins são quase máquinas
de fazer H2?
O mundo inteiro, hoje
em dia, sofre o impacto do uso descontrolado de combustíveis
fósseis. Além de esses serem combustíveis
que são finitos e não renováveis, eles
poluem significativamente o ambiente. Uma das conseqüências
é o aumento do efeito estufa. Então, fontes
de energia mais limpas viriam bem a calhar no atual estado
em que a humanidade se encontra. Nesse cenário é
que o hidrogênio se desponta.
Diferentemente da gasolina,
a queima do hidrogênio tem como resíduo a formação
de uma substância ambientalmente tolerável:
água. No caso da gasolina e dos demais combustíveis
fósseis, há formação de água
e também gás carbônico, que é
considerado um gás estufa. Outra vantagem do uso
de hidrogênio em relação à gasolina
é que esta requer maior massa para obtenção
de uma mesma quantidade de energia. Isso devido à
baixa densidade do hidrogênio. Porém, essa
mesma propriedade também aponta para uma desvantagem
em relação ao uso do hidrogênio. Para
se alcançar uma mesma quantia de energia, são
requeridos volumes maiores de hidrogênio se comparado
ao volume de gasolina. Mas, e os cupins
nessa história toda?
Não esqueça
que os cupins são grandes fontes produtoras de hidrogênio.
Os cupins, por exemplo, poderiam produzir dois litros de
hidrogênio a partir da digestão de uma única
folha de papel. Para ser mais preciso, os microrganismos
dos cupins são os grandes responsáveis. Ou
seja, os cupins podem fornecer diversas idéias de
como conseguir a tal fonte de energia limpa. Como transportar
todo esse conhecimento para uma escala industrial?
Diversos estudos têm se dedicado a estudar os microrganismos
do tubo digestório dos cupins a
fim de conhecer aquele específico que é responsável
pela produção de todo o hidrogênio.
Estudos de biologia molecular tentam arduamente descobrir
qual é o gene responsável por produzir a enzima
que converte a matéria vegetal em hidrogênio.
De posse desse conhecimento e com o uso da bioengenharia,
os cientistas fazer com que o processo de obtenção
de hidrogênio seja construído em escala industrial,
como verdadeiros bioreatores, visando a produção
do gás em quantidades que atendam ao mercado cada
vez mais faminto por novas fontes de energia.
Cupim: está servido?
O leitor já
deve ter se deparado com diversos hábitos alimentares....
Baratas, olho de cabra e até cachorro. Nada escapa
da criatividade humana quando o assunto é o que comer.
Mas o que o leitor não deve imaginar é que
muitas pessoas pelo mundo não são repelidas
com tanta força pelos cupins. Pelo
contrário, enxergam neles uma ótima pedida
para o almoço.
Um bom motivo para
começar hoje mesmo uma dieta rica em rainhas, reis,
soldados, operários é que, em sendo muito
abundantes, dificilmente a fome chegará à
casa do leitor. Lembre-se da quantidade enorme de cupins
espalhados pelo mundo. Ainda que pareça piada, alguns
povos como indígenas não possuem a ampla possibilidade
de escolha de alimentos como os povos civilizados ocidentais.
Alguns povos ainda por cima passaram por momentos de fome
e miséria, que impulsionaram estes a comerem de tudo,
sem desprezar, inclusive, os cupins. Outra característica
além da quantidade é o tamanho. Para ser considerado
passível de alimentação, os cupins
devem chegar em um tamanho ideal para o consumo. Em regiões
onde há escassez de alimentos ricos em proteínas,
a alimentação de cupins é
muito importante.
Em muitas regiões do mundo, algumas colônias
de cupins com características palatáveis são
guardadas como propriedades, como verdadeiros tesouros.
Na Uganda, por exemplo, já foram encontrados sacos
de colheita repletos de colônias de Macrotermes. Esses
sacos seriam de “colheitas” de um ano. Frequentemente
os alvos são os indivíduos reprodutivos. Mas,
como se faz para caçar ou mesmo coletar um cupim?
Existe uma infinidade
de métodos para a coleta. Um deles é cobrir
o cupinzeiro com uma rede. Assim que houver revoada, os
cupins ficam presos na rede e podem ser coletados facilmente.
Alguns usam folhas de banana dobrada para apanhar os cupins.
Armadilhas de diferentes tipos são usadas. Elas meramente
impedem que os indivíduos alados de voarem a distâncias
muito grande da saída do ninho.
Os índios da
Amazônia são exemplos de povos que se alimentam
de cupins. Eles se alimentam somente dos
soldados, que eles coletam inserindo uma longa haste de
gramínea dentro do ninho. Cuidadosamente a haste
é retirada e os soldados vêm presos pela mandíbula
na haste. Isso prova que há uma grande variedade
de modos de coletar cupins. Mas e de comer? Existe também
essa variedade?
A resposta é
“sim”. Cupins podem ser comidos tanto cru como
levemente assados. Podem ser comidos tantos inteiramente
quanto podem ter a cabeça retirada (para poder apreciar
melhor o gosto da quitina!). Alguns mercados dos Estados
Unidos vendem cupins embalados, juntos da sessão
dos demais insetos, por mais incrível que pareça!